Coluna do Jorá
 por JORÁ MACHADO

Jorá Machado é jornalista, Diretor do Jornal A Notícia do Vale, na cidade de Cachoeirinha - RS e adora a Praia do Sonho. Você pode fazer contato pelo e-mail: jorarima@ig.com.br 
e-mail do Jorá

Lei 3.051/98
DOCUMENTOS ROUBADOS TEM GRATUIDADE PARA FAZER A SEGUNDA VIA
Acho que grande parte da população não sabe, principalmente por falta de divulgação através da mídia; é que a Lei 3.051/98 nos dá o direito de, em caso de roubo ou furto, mediante à apresentação do Boletim de Ocorrência, gratuidade na emissão da segunda via de documentos tais como:
Habilitação (que custaria R$ 4 2,97);
Identidade (R$ 32 ,65);
Licenciamento Anual de Veículo (R$ 34,11)..
Para conseguir a gratuidade, basta levar a uma cópia (não precisa ser autenticada) do BO - Boletim de Ocorrência e o original ao Detran (Habilitação e Licenciamento) e outra cópia a um posto do IFP. Repassem a seus amigos e vamos fazer valer nossos direitos.

SEXO NA PRAIA DO SONHO...
Pois, conforme contei anteriormente, transformei-me em água e estava feliz na Praia do Sonho.
Enquanto eu era água, e vivia na maior onda, pra lá e pra cá, tudo bem. Mas esquentou muito, eu me descuidei e quando me dei conta tinha evaporado! Puxa vida, nem sei como é que isso aconteceu...
Eu tinha virado nuvem e o mar estava lá embaixo, longe, longe... A minha nuvem escureceu e descarregou-se em chuva, fininha, e eu fui caindo, caindo, sentindo um frio na barriga, um nó na garganta e uma angústia muito grande por não saber onde iria parar.
Bati de encontro a um telhado e escorri, lentamente, por uma janela. A chuva parou e eu fiquei ali, colado na vidraça daquela casa. Surpresa! Era um quarto de dormir, mas que os humanos usam para outras coisas. E um casal de jovens estava no departamento de outras coisas: beijos ardentes, já sem roupas, mostrando seus corpos bronzeados, com aquela cor que só a Praia do Sonho proporciona.
Eu, na vidraça, tremia de emoção, pois escorregava lentamente e não queria deixar de assistir aquele espetáculo que há muito tempo eu tinha esquecido. Que lindo!
A moça, ousada, percorria o corpo do rapaz com mil beijos e, com carícias mágicas, fez desaparecer a sua extremidade mais saliente. E eu escorregando...
Tentei me fixar no vidro liso... Mas de que jeito uma insignificante gotinha consegue tal intento?
Quando voltei a olhar, o jovem já tinha penetrado a moça e eles balançavam, furiosamente, feito aquelas ondas em dia de tempestade. E eu escorregando... e pensando no tempo em que era humano...
Acredito que o rapaz, a moça e eu chegamos ao final juntos. Adivinhei que ele tinha se dividido em gotas dentro dela e que a natureza empurrava aquelas gotinhas em direção à vida, em busca de um óvulo maduro.
E eu fui escorregando... Acabei caindo no canteiro que tinha abaixo da janela. Penetrei na terra e, pouco centímetros abaixo, encontrei uma sementinha de flor, ávida pela minha humidade.
Voltei a ser feliz, por ser gotinha d'água, pois ajudei a pequena semente a germinar...
E mais feliz, ainda, por estar integrado, naquele momento, aos mistérios e às maravilhas que acontecem na Praia do Sonho.

 AS MINHAS PRIMEIRAS RESSACAS...
Depois que o meu corpo transmutou-se em 100% água, conforme contei na coluna anterior (leia abaixo...), passei uma eternidade em total deslumbramento, admirando as indescritíveis novidades vivenciais que a situação me proporcionava: o mar, como um todo, deveria ser relacionado, universalmente, como a Oitava Maravilha do Mundo! Ou seja: eu, como mar que agora sou, seria uma das oito maravilhas...
Após o tempo necessário para conhecer a Praia do Sonho daquele novo ângulo - vista com olhos de mar ela é mais linda ainda! -, comecei a tomar conhecimento das fofocas da praia...
Na primeira semana de fevereiro, quando aconteceu aquela ressaca bárbara, o disque-disque, o molha-não-molha, era a atitude de alguns siris que tinham participado de uns comerciais de televisão para uma determinada marca de cerveja e se encontravam hospedados na Pousada da Ilha do Papagaio. Com o sucesso dos filmes e ficando ricos com os cachês que ganharam, aqueles siris passaram a esnobar os outros da mesma espécie. Não se misturavam mais e se consideravam como uma nova casta de artistas, de decápodes que se deram bem na vida, de branquiúros nobres, dignos representantes da família dos portonídeos. E exigiam ser chamados pelos seus nomes científicos: um era o Portunus spinamamus; o outro, Callinectes exasperatus; tinha o Arenaeus cribarius; o Callinectes danae e o Callinectes sapidus.
Freqüentavam apenas a parte mais nobre da praia, contrataram seguranças, vida de rico, enfim. O comentário era de que manicures especiais cuidavam dos seus dez pés.
O deboche final veio quando eles deixaram de se alimentar de detritos em geral, como tudo que é siri, e começaram a usar a telentrega e a receber, em plena areia, comidinhas especiais vindas do Restaurante do Cesar. Enquanto isso, todos os outros siris até fome passavam.
Quando fiquei sabendo que os siris fariam uma grande manifestação na beira da praia, fui lá para solidarizar-me com aqueles excluídos. Eu e muitas outras ondas que pensam igual, ajudadas pelo "cumpanhero" Vento, invadimos as areias.
E foi o que se viu: a primeira grande ressaca do ano.
Fui chamado a atenção pelas Forças Superiores, que me explicaram que nós, do mar, não devemos interferir sobre o que acontece a partir da areia. Sob pena de causarmos grandes estragos. E mais: me ordenaram que passasse a estudar os problemas do mar, onde, também, havia muita injstiça social.
Desculpei-me e voltei à maravilhosa vidinha de eterno vai e vem, só até onde começa a areia. E, chegando lá, com toda a calma, tenho direito a brincar de pula-pula com as crianças.
De política, nada!

A FELICIDADE EXISTE
A última vez que me viram foi sentado à beira mar, na Praia do Sonho. Olhando o mar, admirando as ondas naquele eterno vai e vem. Pensando em tudo e não pensando em nada, como todos nós fazemos quando entramos em comunhão com os mistérios do mar.
Ah!, o mar... "o mar, quando quebra na areia, (na praia?) é bonito, é bonito..." como disse Caymmi.
Uns garantiram que eu tinha morrido afogado: - "Virou comida de peixe!" Outros, mais práticos, diziam que eu tinha fugido: - "Está vivendo num paraíso fiscal!". Os amigos sabiam que eu jamais me suicidaria e que o mar, por ser meu velho amigo, não me mataria. Sabiam, também, que eu não tinha dinheiro para viver uma aventura capitalista.
Então? Vou contar. Realmente, eu estava sentado na areia, admirando as ondas...
O sol forte, mais quente do que nunca, me fez lembrar que o nosso corpo é feito de 70% de água. Entrei no mar, pensando: vou me refrescar, me reidratar. E dentro d'água estava tão bom que fui ficando, ficando... O tempo passou. Quando me dei conta, o meu corpo tinha um alto percentual de água salgada, talvez uns 80%. Ou já seriam 90%? E foi bom. E eu fui ficando. Com muita felicidade no coração, constatei que na composição do meu corpo constavam, além de tudo o que se sabe, muitos outros elementos: ouro, cobre, magnésio, fósforo, cálcio, zinco, potássio, manganês, iodo... Uma transformação se deu

e eu me perguntei: Eu sou peixe? Eu sou areia? Eu sou alga? Eu sou sal? Racionalizei. Alcancei a perfeição: o meu corpo é 100% água. Eu sou mar. Sou onda. Livre. Onda que vai até a beira da praia, olha os humanos e volta em direção ao paraíso. Feliz, como jamais fui, estou mais vivo do que nunca. Felicidade existe